Temor nacional na era da morte do uniculturalismo
Artigo original escrito por Tony Barber para o Financial Times
Não havia nada de tão ofensivo no discurso de David Cameron deste fim de semana sobre o “fracasso do multiculturalismo”. A comunidade afro-caribenha da Grã-Bretanha não foi sequer mencionada - não havia necessidade. A pesquisa de opinião realizada pelo governo entre 2009 e 2010 constatou que 85% dos britânicos de origem afro-caribenha tinham um forte senso de identificação com o seu país. Há mais duas estatísticas memoráveis nessa pesquisa. Entre aqueles que possuíam um forte sentimento de pertencer à Grã-Bretanha estavam 91% dos cidadãos de origem bangladeshiana e 90% dos cidadãos de origem paquistanesa. Então, o quão disseminados seriam o desenraizamento e a alienação entre os muçulmanos britânicos mencionados pelo ministro? Menos, talvez, do que ele sugere.
Indubitavelmente, um pequeno número de fanáticos carrega passaportes britânicos e comete atos de terrorismo em nome do Islã. No entanto, esse é um problema de segurança e o multiculturalismo é uma questão social. Este último é, no máximo, uma das muitas causas do problema.
A palavra multiculturalismo tem diferentes conotações. Quando a chanceler alemã Angela Merkel a proclamou neste mês de outubro, ela usou o termo “multikulti”, que aos ouvidos alemães evoca a ideia de tristes e velhos hippies esquerdistas. Ela estava zombando não apenas da postura tradicional do Estado alemão sobre os imigrantes, mas dos seus oponentes de esquerda.
Em contrapartida, o discurso de Cameron focou nas sucessivas tentativas do governo britânico de promover a tolerância às minorias ao permiti-las viver separadamente em vez de assimilá-las. O que ele disse não era nenhuma novidade. Ainda assim, ao expor o quanto os jovens muçulmanos são radicalizados, Cameron chegou às mesmas conclusões do relatório de um seleto comitê da Câmara dos Comuns para um programa do governo de combate ao extremismo. “Há uma preocupação com a base teológica da radicalização, enquanto as evidências parecem indicar que a política, seus princípios e questões sócio-econômicas podem ser fatores mais decisivos no processo,” diz o relatório. Alguém lembrou da Guerra do Iraque?
Cameron demonstrou sensibilidade em alguns pontos. O extremismo islâmico e o Islã não são a mesma coisa, disse ele. Veja as ruas do Cairo: não é evidente que os valores ocidentais e o Islã são inteiramente compatíveis? Bem lembrado.
Mas o seu ataque ao multiculturalismo foi essencialmente um grito de angústia diante da desintegração da narrativa nacional na qual a identidade britânica tem se apoiado desde o século 18. Lamentos semelhantes podem ser ouvidos por toda a Europa nos dias de hoje. Os mitos, ideais e preconceitos que moldaram as identidades do continente estão desmoronando sob as pressões da globalização, do declínio do cristianismo organizado e de uma versão extrema do individualismo materialista que é vendido como o supremo propósito da vida.
Mas isso não significa que os europeus perderam suas identidades. Mas elas estão sendo substituídas por identidades novas, menos fáceis de definir e por novas narrativas nacionais. É inútil resistir. Precisamente porque a história se modifica e as identidades, também.
Considere, por exemplo, os franceses. Costuma-se dizer que a identidade francesa moderna deriva da revolução de 1789 e seu heróico lema de liberdade, igualdade e fraternidade. Até certo ponto, mon cher. Oitenta anos após Danton e Robespierre perderem suas cabeças, milhões de pessoas na França ainda falavam idiomas minoritários ou patoás, e não francês. Uma noção universal de identidade francesa não foi estabelecida até finais do século 19 e início do século 20, como resultado das políticas de educação em massa, conscrição e industrialização da Terceira República. Foi nessa era que Marianne se tornou o símbolo da França, 14 de julho foi escolhido como feriado nacional e a Torre Eiffel foi construída.
Mas isso foi naquela época. Mais de 10% dos 63 milhões de habitantes da França metropolitana são de origem estrangeira. Muitos dos quais nasceram na França e são descendentes de muçulmanos do norte da África. Eles estão atualizando a antiga narrativa nacional. O mesmo é verdade para os britânicos. A identidade britânica emergiu no século após o Tratado de União de 1707, que uniu Inglaterra e Gales à Escócia. Ela foi esculpida pelo protestantismo e por longas guerras contra a França, que culminaram na Batalha de Waterloo. Posteriormente ganhou força ao se expandir em um império e pela vitória em duas guerras imensamente custosas contra a Alemanha.
Mas protestantismo e inimigos grandiosos já não são o bastante para nos unir. Poderes consideráveis foram devolvidos à Escócia e Gales. A imigração em massa teve lugar. Não é de se surpreender que a identidade nacional esteja sob pressão. O que poderia ser a base da nova identidade? Cameron mencionou valores: liberdade de expressão, liberdade de culto, democracia, a soberania da lei, igualdade de direitos independente de raça, sexo ou sexualidade. Soa bom para mim. Mas, espera aí. Esses são os valores dos alemães e franceses também. Talvez Cameron seja menos britânico e mais europeu do que ele se dá conta?


Comentários
Postar um comentário